Eu pássaro

Era sono, os olhos pesavam.Era luz caindo a tardeDerrubando um domingoO dia entristecido.A tristeza fora feita com gosto.Hoje tenho saudade.E o que consola é pássaro aparecidoDesaparecidoQuando apareço na janelaEscondidaEm frente a xícara.Tudo se esvaziaarmários,árvores, raízes.Todos se esvaziam…Vozes, cascas, pedrase nomes.Tudo se esvazia,Encho-me do vazio vazioEsvazioSilêncioTotalIndício nenhum de algum qualquer alguém.SópalavraQue quero sem matériasem palavra.Esvazia-se sóa…

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Na minha mão…

Estou cansada…Tão cansada do vazio que resolvi varrê-lo…Deixei que as lágrimas corressem e com elas reguei flores, molhei paredes.Dos passos incansáveis recolhi pedras no caminho. Cansei de vê-las chutadas, arremessadas, como se nelas o golpe não fosse sentido. As pedras sentem…Abri janelas do vazio escuro. É manhã de sol, na ponta dos pés prendi a…

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O primeiro conto da manhã…

O primeiro vento da manhã janela adentro não era ensejo nem desespero, talvez desejo desperto… Desapertado no tocar do vento que foi riscando a pele, eriçando pelos. O vento gelado era manhã esquentando a boca, ressecando os dedos. Um talvez qualquer misura, fissura, vontade e toque de prega e alça, a forma esboçada, um corpo…

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Meu pai…

Quando eu era pequena meu pai inventou um jacaré nascido no ninho de um pé de erva-mate. Cantou para mim… Me falou sobre a natureza, sobre animais soltos, sobre árvores, me chamou para ver pássaros. Meu pai descascou-me laranjas – ainda descasca. Meu pai almoçava na frente da televisão, assistindo desenho animado. E nos domingos…

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Natal

Nos últimos dias escrevi páginas que não se sustentaram. Rabiscadas em folhas amarelas, ficaram por ficar. Foi entre um respiro e um suspiro de véspera que as palavras mais sinceras chegaram como um recordo. Diante de tanta frase e tanta letra torta, o que sustentou o gestar do mundo foram os minutos que estanquei no…

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[intitulável]

“(…) insistiu em tragar. Doeu fingindo o riso em cores na cara, na euforia que a cansava. Que a alcançava numa cobrança vinda em pedaço de papel somado em estreitas margens recortadas. O mundo não era seu. O portão não era seu. A sexta-feira maquiada como sempre o de sempre não era sua. O futuro…

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Nada

nome cego.estraçalhado limite.se entender perco…a compreensão.acho.me perco.Eu que não sinto saudadeSintoRecentetarde que termina cedoesfumatura de lua que lá longe…Lá longe,Esboçada em pedaços de nuvens,Guarda o mundo…Que lá longe esquece a continuidade…Eu não entendoSe entendoNão escrevo.Nunca entendonadapor isso [talvez] não fui boa aluna… do primário à faculdade (só) acumulei chaveiros…Não dizem nadaVidros vazios rotulados.No espaçoSala de aula viajavanos calçados…

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Trecho – Aulas de piano

“Dizem que sessenta segundos cabem num minuto. Tem coisas que nunca se firmam em via verdade. É sempre a primeira vez de nada e tudo. O resto resta insabido em quem é quem – quem? – nos olhos a frente, no papel molhado… Mas sobre isso não há certeza. Fica… (Fica) sem saber o que…

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Chovi…

ChoviPétalaFolhaque voae nadae some…Chovi pó,na mãodeslizou a pedra geladailusão do algodãogrão no prato,no asfalto, na contramãomãos.ChoviSem hora sem diaMorta vivaEscrevi.Chovi.Chovi sobre o guarda-chuva.Fechei o tempo e carreguei-me nuvem escura. Cada nuvem que estacou no céu espaço aqui agora. Amassei as cores num canto ângulo, grau… Montei tabuleiro céu frio e então caí…Pingos grossos, densos, profundos, fundos que…

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