Meu pai…

Quando eu era pequena meu pai inventou um jacaré nascido no ninho de um pé de erva-mate. Cantou para mim… Me falou sobre a natureza, sobre animais soltos, sobre árvores, me chamou para ver pássaros.

Meu pai descascou-me laranjas – ainda descasca.

Meu pai almoçava na frente da televisão, assistindo desenho animado. E nos domingos de manhã nosso programa era sair de carro só para ver a cidade… Só para ver a cidade e conversar sobre coisas. 

Quando eu era pequena ele dizia “vai dormi vinagre”…

Meu pai me apresentou a verdadeira filosofia – aquele de pensar. Depois me falou de clássicos, de nomes. Me deu a conhecer Clóvis de Barros Filho e recentemente enviou vídeos da Rita Von Hunty.

Meu pai leu os livros que me viu lendo, quis saber que coisas eram aquelas de que eu falava sobre vegetarianismo e direito dos animais. Pesquisou literatura… E me chamou para ver cada programa que passava na televisão sobre o tema. Agora me conta sobre todos os livros que baixa no kindle. 

Meu pai esquece quando digo que estou na biblioteca e me liga mesmo assim…

Meu pai me colocava sentada nos joelhos quando percebia que meu silêncio era demais. Era dali que explicava as coisas que eu ainda não entendia.

De vez em quando pego meu pai olhando para mim, não consigo concluir nada, nem saber o que está pensando… Pelas coisas que fala, acho que meu pai vê algo que eu não vejo. E eu quero que ele veja que há força na minha fragilidade e na minha hipersensibilidade. 

Foi meu pai que escolheu meu nome, esse que ninguém pronuncia certo e ninguém sabe o que significa. Pelo que me contam ele dizia que eu precisava ter um nome diferente… Por um motivo que não sei se ele sabe qual é…

Meu pai me fez crescer para eu me tornar livre e independente, era isso que eu ouvia desde pequena “eu quero que você seja livre e independente”. O que também ouvia era sobre pensar por mim mesma e não me preocupar em andar com a maioria… Sobre ser legítima e genuína…

Meu pai se afastava quando me via chorando e ficava bravo quando me via triste. A resposta era e é sempre a mesma “eu estou bem se você está bem…”

Meu pai me fez voar mesmo que lhe custasse estar distante, mesmo que ele não fosse capaz de estar longe, mesmo que a altura do meu voo lhe desse medo. 

Meu pai me deu uma caneta…

Ninguém consegue entender muito bem o que meu pai fala. E ninguém consegue entender o que eu quero dizer…

Tive uma infância e uma adolescência em que a pessoa com quem eu falava sobre tudo, com quem eu divagava sobre todas as coisas do mundo era meu pai. O meu melhor amigo. E no fundo acho que eu também era a melhor amiga dele. Só entre nós havia aquela conversa, a compreensão do mundo, a subjetividade e abstração, o encantamento pelas coisas simples e cotidianas. Depois, não sei ao certo porquê as coisas mudaram um pouco… Talvez eu tenha me recolhido ainda mais e então me perdido num mundo fora do meu. Talvez eu tenha acreditado que a realidade era a faculdade, uma profissão, a vida adulta, coisas, coisas acumuladas…

Poucas pessoas alcançam sobre o que ele fala, acho que eu alcanço e acho que ele também alcança quando digo sobre coisas que digo… Sobre a real realidade. Na verdade eu e meu pai compartilhamos do mesmo mundo…

Depois houve retomadas e recomeços, meu pai relutou mas aceitou que o voo era mais longe, com o oceano no caminho e horas demais de avião para ele.

E quando a coruja branco pousou na janela da cozinha por um segundo, eu a vi com o meu pai.

Meu pai não fala sobre os seus sentimentos… Meu pai me fala sobre ter bons sentimentos, sobre ser quem eu sou, sobre seguir em frente livre e serena da minha escolha, do meu mundo. Sobre seguir tranquila e genuína, não enganando quem sou ou sobre quem sou… Meu pai me chamava de joia rara.

Ele entendeu todos os meus sonhos, todas as minhas vontades. Meu pai se esforça para entender cada coisa louca que eu invento, cada coisa estranha que eu digo… Entende cada sonho de agora.

O que ele não entende é quando choro ou com a possibilidade de eu estar sofrendo. Talvez eu nunca tenha imaginado o quanto o sofrimento de alguém pode ser motivo de sofrimento ainda maior em um outro… Talvez eu e meu pai dividamos da mesma alma. 

Meu pai sempre conta sobre a criança que fui, a menina que não parava de falar, que queria saber o porquê de tudo e que sempre fazia amizade velhos.

Meu pai não olha para câmera quando vamos tirar uma foto.

Meu pai pede quando vou ao Brasil… E sempre é pouco o tempo que estou lá…

Um tempo atrás minha irmã me falou que meu pai sofria estando longe de mim… Eu não imaginava o quanto isso era palpável… Hoje, pela primeira vez desde que fui embora do Brasil, alguns anos atrás, no telefone, ele falou o quanto lhe custava estar longe, que quando eu havia decidido ir embora ele não soube se seria capaz de aguentar, de suportar. Ele aguentou sem falar sobre isso. Eu não posso imaginar quantas vezes meu pai sentiu o vazio – que sinto também eu – por saber que a filha está longe demais…   

Meu pai quer me ver sorrindo. Eu quero ver ele sorrindo para mim…

Hoje meu pai falou sobre o que sente. Porque no caos que foi 2019, com um oceano ao meio e a distante de quase tudo o meu melhor amigo voltou para mim e agora não há distâncias entre eu e ele, entre quilômetros e milhas eu e meu pai nos tornamos mais próximos do que nunca. E no furacão de sucedidos eu e meu pai retomamos as nossas longas conversas sobre tudo, indo dos benefícios da semente da uva ao estoicismo, dos vídeos da Rita Von Hunty ao último livro baixado no kindle, da pergunta sobre como está o tempo, até o próximo livro que vai ler, a próxima viagem, o nosso encontro, os nossos planos, o nosso café. Nas nossas conversas, um apoia o outro, nos fortalecemos e reaprendemos a olhar a vida com alteridade e encantamento.

Vale a pena estar aqui… 

Mas hoje… Hoje nos desentendemos no telefone e para mim tudo fez sentido. Hoje eu entendi um pouco mais meu pai, o meu melhor amigo. Hoje eu entendi o quão insuportável é para ele sentir minha voz engasgada, chorada. Talvez meu pai sofra mais o meu sofrimento do que o próprio sofrimento… E nós nos desentendemos porque ele fica bravo, verdadeiramente bravo, quando estou triste. Ao ponto de quase brigar, como se pudesse controlar… Mas hoje eu entendi o quão impraticável pode ser para um pai, que deseja que a filha alcance toda a liberdade que tem na alma, sentir que está triste ou infeliz. Não basta dizer que não é sofrimento, que é só um dia sensível demais, quieto demais… Ele sente…

Hoje quando andava por ruas abandonadas senti em mim o sofrimento que o alcançava. E não bastava dizer-lhe que era só um momento, que depois passa. Aquele momento, por mais breve que fosse, para ele seria insuportável. Eu alcancei o sentido da resposta que ele então me dá “eu tô bem se você tá bem…”

Meu pai disse que ligaria mais tarde, quando estivesse mais calmo. Mas não ligou, fez minha mãe ligar no lugar. O momento já havia passado, eu já estava no meio da feira, rindo entre pessoas e cães, comendo avelãs açucaradas demais. Eu estava sentindo o quão eu e meu pai somos uma mesma vida…

No meio do caminho chorei de novo, sentindo o profundo sensível de mim que às vezes transborda, acontece de tempos em tempos, acontece agora… 

Nos últimos tempos não escrevi. Mas a poucos minutos atrás, depois de fazer o caminho de volta, de respirar vazios e me derramar no céu que estendeu o resto do sol, enquanto distrai meu rosto, distraídos também sopraram os instantes e encantamentos que divido com meu pai. Porque hoje alcancei o quão forte meu pai precisa ser para entender que para aquela garotinha fofinha e extrovertida que fui a liberdade pede outra coisa, um passo a mais, que aguente também um pouco mais, que suporte ainda e que continue… A liberdade é genuína no que fora e no que sempre será. Porque os sonhos daquela garotinha são diversos, fluídos, ela não quer nada, mas tem algo dentro dela quer a quer…

Para aquela garotinha o pai é o mundo.

Hoje reconhecendo uma outra parte deste mundo, me senti mais próxima dele, ainda mais plena e mais certa sobre como eu e meu pai fomos destinados um ao outro, como nossa relação é qualquer coisa outra que escapa do mundo. Eu e meu pai somos destinados um ao outro.

Para não sofrer, meu pai poderia ter impedido que eu voasse. Mas não o fez e nem agora faz… Meu pai acredita no caminho, na minha busca, no meu eu… Poderia ser mais fácil estar lá, mas não seria… Não quando se sabe que tudo aquilo que está vivendo é por algo que a pertence.  

Eu não sei o que o mundo escreverá como trilho para mim. Talvez daqui a pouco a vida me empurre de volta para ser outra vez a criança que descia depois do almoço com o pai para comer laranja no pé, que catava pinhão, para vê-lo ser criança entre netos. Para dar a uma criança o nome do pai, para continuar a conversa, a brincadeira.

Do ano que passou eu soltei as cordas de mim. A vida não me pertence, eu pertenço a ela e o que eu quero é que ela me leve…

Eu e o meu pai somos o pó da mesma estrela…

E se a vida decidir eu volto para abraçar ainda mais forte meu pai e dizer que agora eu entendo…

05.01.2020