Para Marcelo Nunes… Sobre a mesa bagunçada, entre tantos outros livros, os teus. Tuas palavras descansam, pensadas e repensadas, vivas, próprias, sem gaiolas, escritas como preferia. Sem que fossem levianamente soltas na pronúncia da fala, sem pensar. Sobre a mesa, a companhia de ti, em livros. Escrevo-te, pois este continua sendo o nosso caminho… Sob o computador, um projeto... Aquele sobre o qual conversamos, imaginamos a capa, mudamos a cor. A promessa de enviar assim que estivesse revisado. Está sendo… …E lembrar agora a arte e a filosofia, fotografias e as braçadas navegantes, o nauta astronauta da tradução das palavras desconhecidas e do desconhecido. Vasculhando sem dobrar páginas acreditadas, sendo um vento contrário. Na aba aberta, o artigo, a navegação escrita do teu próprio trilhar pensante. A lucidez do olhar sobre a arte e a literatura fora das convenções, fora das maquiagens. Ainda sem saber, foi ontem… Vasculhei a livraria pelo livro que tu havias me indicado. Andei com as conversas e os vocais do sábado… Eram os livros, as sugestões de leituras, os autores. São os conselhos, as trocas, os áudios longos. Era dizer obrigada… Que seja só o começo. Que seja só. E é… Sabe Marcelo, ontem alguém me disse “não queria que você tivesse perdido um amigo”. Eu respondi, “eu não perdi, só vou ter que encontrar um novo jeito de conversar com ele…” Já estou… Essa noite, nas últimas horas de sono, sonhei contigo… Caminhávamos lado a lado, falávamos sobre a FLIP, citamos nomes de autores… Nunca nos vimos pessoalmente, mas não era preciso. As palavras em frases lidas e escritas costuraram a trama de uma amizade de letras. Que continua, que continua… Em breve, vou sair para comprar o livro que ontem não foi encontrado. O livro por onde devo começar… O livro, pensando em ti, por tudo que pelos fios invisíveis e infinitos, continua… é mais uma travessia, tu continuas navegante, a navegar. E os livros que repousei ao lado, folheio-os, lendo os trechos sublinhados. Leio-te, forma pulsante do que é vivo... E o título que você escreveu na mensagem como sugestão do começo, agora espera sobre a mesa. Hoje foi encontrado, quase por acaso, no lugar errado da estante. Eu estava quase indo embora, mas ainda vasculhava capas e títulos. Levantei os olhos. Em exemplar único, esperando, esperava… Esperando Godot, Marcelo. Segurei fundo, por aqui estás. …E por onde fores, com as palavras e os livros, vida longa. Paz, amizade, silêncios… “Eu fui feliz, cá do meu jeito. Não foi aquele arrebatamento, nunca foi, mas tivemos paz, amizade, silêncios.” (p.90, Travessia Marítima, Marcelo Nunes). Rio de Janeiro, 01-02.09.2026
