Trecho: meu filho

Escrevo enquanto você me espera, me gesta no tempo que esta gestação tem para ser. Minhas mãos suam, minha cabeça dói, meu corpo está com frio. Eu tenho medo morando mim, uma angústia que mede e toma todos os movimentos, todo respiro, toda esperança e toda fé. Uma angústia que não dá tempo de chorar,…

Continue lendo

Trecho: Ninho e barco de papel…

Eu não sei mais nada de você…Acompanhei o silêncio do dia com meu próprio silêncio. A voz diziam que me saia fraca, ‘inescutável’ quase. Respirar ainda doía, o coração músculo existia dolorido, era a falta de exercício de força ou a força demais.Acompanhei o silêncio do dia, a desaceleração das cores e da luz, o…

Continue lendo

Chovi…

ChoviPétalaFolhaque voae nadae some…Chovi pó,na mãodeslizou a pedra geladailusão do algodãogrão no prato,no asfalto, na contramãomãos.ChoviSem hora sem diaMorta vivaEscrevi.Chovi.Chovi sobre o guarda-chuva.Fechei o tempo e carreguei-me nuvem escura. Cada nuvem que estacou no céu espaço aqui agora. Amassei as cores num canto ângulo, grau… Montei tabuleiro céu frio e então caí…Pingos grossos, densos, profundos, fundos que…

Continue lendo

Excessos (parte)

Sylvia nunca me esperou. Vitor não soube meu nome. As esquinas não sabem onde estou. Meu estômago roncava querendo botar pra fora a tempestade tropical, os calos na garganta eram silêncios apertados. Eu queria desaguar nos olhos Eu estava seca queimada como floresta esquecida… Esquecida e abandonada nos corpos vivos queimados até a raiz. Queria…

Continue lendo

Era quase…

Em qual hoje fechar os olhos?Quando desmorona o mundo sentido no buraco da alma.Tudo tudo desmoronando agora.Passou.Vira pó e nada, nada sai do lugar…E onde meter a frase seguinte? Nova linha, ponto, seguir em frente, parágrafo…Onde descansa a linha do infinito? Beijo na nuca, meu corpo ausente, a boca do lobo. Ausente.Isolada ilha, confins da história…O…

Continue lendo

Em (fim)…

Espalhei frases no caderno. Foram três páginas até alcançar a neblina que correu no meu corpo, nas minhas veias, na minha pele, através dos meus olhos, na secura do cabelo. Era a mesma velocidade em que o carro foi correndo para além do limite. Há viagens que se fazem para comemorar, para conhecer, para registrar,…

Continue lendo

Tudo que corre, corre…

Uma única lágrima que corre.Corre.Morreu na boca.Alimentou um suspiro seco de ar.Horizontal.Vertical.Esse todo vago que corre quando alguém grita que “tudo corre”.E tudo corre numa tal e precisa perfeição não sinfônica. Desafinada. Alinhada nas cordas de um violino cansado no ombro.Pedras, bolinhas de gude sozinhas que correm, equilibradas umas nas outras. Pedras e bolinhas de…

Continue lendo

Quando as luzes se apagaram

Quando as últimas luzes foram apagadas o que sobrou no prato foi um resto de domingo, uma bola de arroz duro no estômago, livros não lidos… Um silêncio quase vazio, embrionário e forte que respirava lento, lento… Ao fim, quando o quarto foi deixado no escuro, um rosto borrado se escondeu no travesseiro, no calor…

Continue lendo

Quarto vazio

Apaguei as últimas palavras desconhecidas no livro. Assoprei as migalhas de borracha. Escrevi poucas linhas e fechei o caderno vermelho. Deixei o copo na porta. Havia menos, ainda era menos de um gole o que esperava no fundo. Minha cabeça acostumada a girar não girava.  Entrei e fechei a porta. Apaguei a luz. Tirei a…

Continue lendo

Eu que não cresci

Quem brincou comigo de boneca, agora tem nas mãos bonecas que movem os pés quando querem ao mesmo tempo em que jogam os bracinhos no ar. Mas eu… Eu que não cresci, fiquei de lado na brincadeira. Mudei de lado na terça-feira e, sei lá, deixei ir por outro trilho, outra margem na folha. Fui…

Continue lendo