Em (fim)…

Espalhei frases no caderno. Foram três páginas até alcançar a neblina que correu no meu corpo, nas minhas veias, na minha pele, através dos meus olhos, na secura do cabelo. Era a mesma velocidade em que o carro foi correndo para além do limite.

Há viagens que se fazem para comemorar, para conhecer, para registrar, para esperar na mesa do bar, na tela do celular. 

Há viagens que faço para conhecer(-me) na atmosfera que me escapa, nunca sei quando… O lugar, o tempo, os copos e os passos decidem. Quando acontece eu fico e deixo que todas as coisas vivas me reconheçam ali, em ruas, nas estradas, no castelo, na barraquinha de comida, na bancada do albergue, nos olhos profundos de um homem velho que olha junto e vê, na dose de uísque às 10:30 da manhã.

Entre os últimos destinos algo estranho aconteceu, o desconhecido onde meus olhos tristes pareciam velhos conhecidos.

Foram horas do caminho até enxergar no horizonte que era eu o olhar perdido, hipersensível, envergonhado, tímido e introspectivo. Sou eu esse riso apertado, esses olhos molhados nas folhas secas do chão, nas folhas altas onde o sol alcança. Sou eu tonta na multidão, vendo um cão passando, um pássaro chegando, um gato vigiando. Sou eu parando, me demorando em livros escritos em croata. Sou eu com uma mochila não pensada, com roupa de menos e livros demais – que não serão lidos, mas estarão ali. Sou eu, estranha. 

Distraída, de pouco em pouco, de canto de olho acalentei esse resguardo silencioso e lento que me alcança para enxergar a migalha onde o pássaro repousa. É esse olhar tristonho que me arrasta para além de sentir profundamente, que tão sutilmente e sem engano se estende da superfície da minha pele. Esse jeito meu de pensar nas últimas semanas, no quase adeus, no término, em malas desfeitas, em malas feitas para serem deixadas num canto do quarto, na hora de devolver os trocados, as roupas, retratos. Carregar os livros para onde? 

Eu não sei ao certo o que aconteceu nas estradas que me levaram ao leste, nas paradas, nos olhos que chegaram nos meus olhos, nas ruas, vitrines, quando pesou o calor na água salgada que correu. Ergueu-se uma tristeza abotoada em silêncio. E na conhecida encruzilhada, o dilema entre sobreviver no mundo ou andar pelo desconhecido de saber quem sou, sem garantia, sem perspectiva e sem resposta. 

Horas e horas em alta velocidade, com o rosto escorado no vidro e o olhar fingido nas montanhas e vilarejos. Na boca a voz não soprava, o silêncio não cansava, repousava em mim como um manto protetor. 

De norte a leste, não foram só os dias e as rodas do carro que se colocaram em movimento. Na volta, de leste a norte com uma caneta amparando o tremor das mãos talvez eu tenha alcançado qualquer coisa calculada em semanas acumuladas em um tanto de tudo que mudou: O romper de um relacionamento, o coração que parou de pulsar na máquina, a tese que deveria estar terminada e nem começou. As páginas de um livro desistido que se soltaram num vácuo escuro, recado nenhum na caixa de entrada. Já não insisto em respostas para as perguntas que não faço. Quando escrevo argumento nenhum me interessa, leituras preliminares não interessam, técnicas não me interessam, críticos, teóricos e editores não me interessam.

Vago, divago, só…

E na falta de confiança, de credibilidade, de segurança e certeza, escrever me interessa. Escrever sem pensar em nada. O tempo em que cada letra desenha uma forma maior que tudo, redesenha um lugar sem nome e sem localização, fugido de tudo o que está feito e vendido pronto. Sentei nas beiras de um canto deste lugar e no retorno sem volta eu olhei pela janela e reparei as coisas mudadas… 

Girei as voltas que a vida fez em poucas semanas:

Estava no caminho para casa depois de uma tarde na biblioteca quando o laço de uma relação se desfez, pontas soltas. Nada aconteceu. É da vida. Tudo acaba para não acabar. A mutação das manhãs de sol, as novas viagens. Um trecho inaugurado da estrada, os trilho do trem da manhã seguinte. A imprecisão da previsão do tempo. Eu por mim…

Eu esperava da janela a chegada do correio – um indício sobre páginas escritas meses antes – quando cansei virei as costas por um copo de água. O telefone tocou e o que deu para sentir foi um coração aos pulos, aos socos, me matando sem ar. Uma amiga partia na hora em que o amanhecer se estendia num dia lindo… Continuei ali sentada, achando mesmo que a tarde que vinha era de um dia lindo.

E a tese que deveria chegar ao fim nas semanas próximas não existe. Não há nem ao menos um começo. Enquanto isso idiomas se transmutam no céu da boca, no acento tônico, na vogal aberta.

Sem tempo, me demoro para deixar de entender que não reconheço fins, mesmo depois de passar a borracha a palavra continua ali, escrita. Mudou o ato, a cena, o canto e o palco. Mudou a rua, a esquina, os passos, as mãos estão soltas. Transformou o tempo, o capítulo seguinte, o voo da borboleta. Mudou a cor da parede, o percurso da biblioteca, a música no ouvido.

Em poucas semanas um tanto foi mudado, a mobília mexida do lugar. Quadros ainda pendurados, portas destrancadas. Uma palavra apagada escondida no farelo de borracha. Eu desisti e então percebi a nova disposição dos lugares na prateleira… Está bem assim…

(Re)enxerguei o dobrar da estrada e encontrei uma amiga voando para não sofrer aqui; um bem querer que ficou melhor quando soltou a mão para se descobrir, uma espera necessária para a confirmação da hereditariedade. Um idioma, uma frase escrita, um nome com jeito local. Eu sozinha atrás da porta, escorada no muro, guardando o reflexo da água, um passo no escuro…

Para tantos textos o contexto ainda é um silêncio vago. Tanta coisa mudou tão rápido, tantas coisas se atrasam e ficam assim… Sem página, sem capa nem título, sem futuro… Eu escrevo. Só. Escrevo na minha falta de fé. Sem nada, sem passado, presente ou futuro. Eu escrevo para resistir em mim. Para respirar por um dia a mais. Escrevo obrigada pela mão da palavra que se inscreve…  Escrevo pelas semanas que transportam mudanças, caminhões que não passam na rua.

Não há motivo, justificação, convencimento. Tudo acontece num simples assim, como o voo de um pássaro preso na face de uma moeda. Em semanas os carimbos quase se pagam, mãos se soltam, um corpo se torna invisível. Eu escrevo e enquanto escrevo o fim é uma passagem, um portão para o outras histórias, para o conto mágico que ficou para depois do enfim…

Talvez depois de andar de leste a norte e vagar por aí nas ruas, beirando canais e margens, eu deva depositar na vida a única moeda com cara de Dante que tenho. Intuitivamente depositar a confiança que devo e ficar devendo outra vez quando tudo desmoronar, quando voltar para a casa que não existe, quando pegar um copo para engolir um dor doce… E na fé que falta fechar os olhos e deixar tudo como está, em paz…

Mares sem margens, estradas sem começos, o meio do percurso, a metade da página, o princípio da música escrita. Continuar… E escrever sem sim, sem fim, é tudo. Escrever sem nada, sem perspectiva ou objetivo.

Porque quando quase tudo mudar outra vez e o dia se transvestir de caos eu vou estar escrevendo. E quanto uma tempestade me devastar, quando uma avó atravessar a rua com os netos carregando balões coloridos e quando outra vez eu ficar transparente no mundo, sem nome e sem rosto eu vou estar escrevendo. E eu vou estar escrevendo, ali num banco de praça, na cama, na calçada, no bar, nos braços, nas costas de alguém, na palma da minha mão. Quando tudo parecer chegar ao fim eu vou estar escrevendo – sem fim.

16.10.2019