Chupava a manga na beira da pia, saltava a lembrança que havia ressaltado dias anteriores, aulas na escola. O que constitui um povo? Qual é a diferença entre povo e nação? Do sofá se ouvia sobre a época da manga lá no nordeste e a safra que vem pro povo brasileiro. O que constitui um povo? As palavras decoradas foram esquecidas, talvez hoje não saberia redizer a oração. A pergunta, no entanto, esta continua fresca. Maturando, madurando sem cair do pé. O que constitui um povo… Chupo a manga do livro e as mangas invisíveis da pele por onde o suco escorre, espera-se… Espera-se como quase esperou-se Godot, espera que a manga não volte a ser fruto de colônia e que as árvores não estejam entregues a uma inércia maquiada de mudança. Espera-se que exista um povo. E talvez uma nação… Nos últimos anos foi-se conhecendo outras facetas quase inimagináveis do que talvez também constitui a nação… Um mesmo solo em rachaduras. Um mesmo telhado, dividido em parcelas e castas. Classes desclassificadas que continuam vigorando. Olhem-se às ruas. Olhem-se as ruas. Hereditários, herdeiros, lugares marcados… Um povo demarcado, criado a marcações. O que constitui um povo… Há o povo. A frase se solta e se esquece. O que constitui um povo… …e a nação? Das vésperas do primeiro turno, ao intervalo suspenso até o segundo turno, anda-se pelas ruas, intermediam-se bairros os passos avizinhados. Nas entrelinhas vai se redescobrindo certa comunhão dada pelo sinal de um adesivo. Veste-se um tom em vermelho. E isso, de alguma forma, entre tantos meios-tons nos aproxima e nos assemelha. Apenas cruza-se, cruzamo-nos. Não pronunciamos palavras nem adentramos conversas. Cruzamo-nos e sorrimos. Sorrimos como reconhecimento de onde depositamos nossas esperanças. De mundo, de futuros futuros, de frutos que caem do pé num solo que é, aqui ou em qualquer lugar, único. Enfim e por agora nos reconhecemos em algo. Poderia, então, justificar a explicação entre correntes partidárias e ideológicas. Entretanto, permaneço na sensação de união que vem de um lugar que lê as entrelinhas da história, que ainda repara a mata e o prato, que tem uma certa alegria - algumas vezes fingidas -, mas, ainda assim, ainda assim… Afinal o direito de sermos contraditórios. Diante de alguma coisa incerta, existe uma certa irmandade destes nos quais nos cruzamos carregando um adesivo grudado. E como toda a irmandade, há suas contradições, suas intrigas, as complicações das lavouras… Arcaicas. Ainda assim… Durante a feira de sábado, Dona R. chegou, como sempre, com seu carinho, seus saquinhos plásticos lavados e um chapéu popularmente conhecido como chapéu de cata ovo. Há tanto não encontrávamos a Dona R.… Neste sábado, Dona R. chegou também carregando seu adesivo no peito e sorrindo. Sorriu ainda mais abertamente quando viu adesivos por ali. Ela lembrava do cozinheiro. Ela falou outra vez do filho, tocando instrumentos. Dona R. está esperando por ele. Entre coentros, limões, cachos de banana ainda verdes, Dona R., puxou da sua bolsa de feira dois pacotinhos de papel. Embalagens de um papel seco e duro, que servem para as coxinhas e enroladinhos vendidos no carrinho de comida da esquina em dias da semana. Dona R. oferecia, estendendo-os ao outro lado da banca, a quem havia cultivado o tempo da espera dos contos coentros e da lavanda, do capim santo. Amarrados com uma linha, ela mostrava como havia preparado de maneira brincalhona e criativa, sua forma de expressar esperança. No relógio desenhado no pacote, as somas das horas eram 13, no outro pacote o barrado inventado, desenhando 13. Quando o laço do pacote foi desfeito, 13 cisnes em origami voavam unidos por um fio de linha. Unidos num mesmo condão. Entre pacotes presenteados entre seus dedos tortos e sonhos em origami, Dona R. celebra com amorosidade e gesto sua resistência, sua esperança. Olho para esse fio de cisnes que nadam as margens dos livros do quarto onde escrevo agora. O que constitui um povo… O que se entende como nação… O que poderia constituir… Pode ser que seja apenas uma agora, mas por hora há uma comunhão comungada naquilo que nos veste um adesivo vermelho. O que, nas entrelinhas da nação e do povo, semeamos. O que constitui um povo… RJ - 18.10.26
