Casa

De repente eu fui pintada de casa e no parapeito da janela as flores foram molhadas. Eu não sei se foi o cheiro do pão ainda no forno ou se foi a granola queimada… Não sei, mas talvez foi madrugada levando para casa. Talvez tenha sido o caminho de risada. Ou as piadas, as voltas de carro, a falta de rumo… Talvez tenha sido a falta de pressa, o tempo sem contagem, sem argumento, sem os anos. Talvez o convite repetido na insistência, o cheiro do perfume, as flores nunca dadas. Talvez a inexistência das datas… Talvez tenha sido a impressão, um aperto de mão, a camiseta rasgada, uma xícara, a fotografia, as câmeras fotográficas. Talvez tenha sido observar de longe, falar mais baixo, a expressão de espanto, a curiosidade, as flores azuis que ainda serão pintadas. A taça de vinho, as taças de vinho, sentar na praça, fumar cachimbo, falar com estranhos, ter medo da ponte. Talvez a vontade de viver mais um pouco sabendo que o tempo nós criamos e que a vida é um sopro pra ser sentido nas borboletas voando do estômago.

Talvez tenha sido abrir a porta, seguir adiante, não machucar pensando, saber que às vezes é perdoando e às vezes é diante do mar acalmando. Talvez tenha sido insistir diante de tanto talvez, de repente, quem sabe, um dia… Talvez tenha sido o anúncio em tenda de bandeirolas caindo chuva. Talvez guarda-chuva, lugarejos, atravessar fronteira, café e banco. Andar por aí, experimentar, tentar algo novo. Talvez a fome, a vontade, o telefone.

Talvez o dia de ontem, de amanhã, de agora, assim, tudo misturado sendo sentido, fervido, preparado e servido. Talvez seja o salto das cores na panela. As feiras, talheres, maçã e lembrar. Talvez seja arte… Talvez seja a vida e esse canto de pássaro que toca no telhado dessa casa de asas que voa até o próximo canto. E a poeira, o calor, o prato pintado, a roupa lavada. Talvez seja Sara…

Talvez aeroporto. 

Talvez trem, campo, floresta, sonho.

Talvez seja só a brincadeira, olhar pro lado, trocar o copo, querer a sopa fervendo. Talvez seja gostar tanto de imaginar, de viver no pensamento e dali não querer ir embora. Encontrar casa em braços quentes para quem chega buscando refúgio, voltar e encontrar morada. 

Talvez seja não precisar das paredes, dos tijolos, as chaves foram jogadas para fora. Num reencontro, não conseguir segurar o riso, não existir nada que não seja um abraço sorrido. 

Talvez tenham sido as lágrimas seguradas num colo ou o mala feita num outro, talvez tenha sido a liberdade de poder voar e voar para longe, para longe de casa…

Eu não sei, talvez tenha sido a árvore, a folha feita anel, talvez tenha sido a falta de jeito com as palavras ou as pontas dos dedos. Talvez a curva dos cílios, os livros não lidos, a aventura que diz “vamos”, vira o barco, rema mais rápido agora, levanta o banco, muda a marcha, pedala. Talvez seja a vontade que transborda e vai em frente. Talvez seja o pôr do sol, acordar cedo, fazer café, não ter receio de se atropelar, escrever errado, falar errado, de dar errado. É tentar e pintar de flores as paredes da cor do infinito. Talvez seja o gosto de desenhar as janelas para o horizonte. A curva na boca que diz vai… Vai… E eu tô indo. 

Eu não fico…

Vai que eu tô aqui...

Eu não sei, talvez seja assim… Não segurar. E de repente, quando o sol desce pintando riscos no rosto eu estava pintada de casa, ainda cheirava a tinta, havia pétalas escoradas nos meus sopros...

E num silêncio feito de tarde, numa réstia de sol feito calor, na pintura do mundo, na  distância sem geografia, a casa foi erguida enquanto eu empurrava a mala. A casa ganhou rosto, eu fui ficando e fui partindo levando casa…



Para M.


08.06.23