Ancora Girasole

“(...) uma coisa é ler livros, e outra, aproximar-se das pessoas.” (Paolo Rossi, p.11)

Ontem (foi antes de ontem) D. Guida me deu um pote de framboesas colhidas por ela, hoje (foi ontem) ela secou minhas lágrimas e depois deixou-me umas tantas bergamotas (tangerinas). Semana passada foi laranja e algum dia desses bolo que dei para outras pessoas… E talvez hoje (ontem), quando a D. Guida sentou-se ao meu lado e juntas trocamos parte das nossas histórias, frutas e embrulhos de doce, eu tenha encontrado qualquer trecho deste texto e desse retorno.  

Pois eu já havia subido e descido ruas rascunhando o texto sem encontrar o começo… Inventei a justificativa de terminar de ler o livro. O livro está terminado (faz tempo)… Passei as fatias de horas olhando uma esfregona ir e vir. O chão já está seco.

Já tinha pensado na criança que fora e nas crianças que me entristeceram - me entristece sempre a cena de uma criança querendo um doce, um pacote de pipoca colorida, um picolé, e não tendo. 

E pensei que talvez eu não tenha realmente vocação para a felicidade. Mas há este estado de estar entregue, diante das coisas, do outro… De cada acontecimento, cada ato e expressão que vão acontecendo diante de mim e dos quais, sem que saiba, eu sou, ali… A criança que quer o doce, um homem que tem fome, a fruta deixada no canto da mesa, o café pelo desabafo, aquele outro que no outro lado da mesa talvez me conheça ou não… 

Vez outra, talvez eu seja o mero instrumento girando a massa do tempo, girando na massa tempo, de repente revirada de lembranças que vão ou vêm aos toques tocando, puxando pela barra.

É já de tempo que estou tentando encontrar as palavras ou as motivações que me levaram a deixar ao lado esta história sobre histórias. Estas que, de algum modo, me fazem existir em mim ou para além de mim…

Por isto,  agora ouso o convite.
Senta, lá vem a história…

…Foi antes de nos vermos fechados numa pandemia. Esta, quando chegou, tinha-me lá no que foi um dos epicentros da doença. Nessa altura paramos de dividir os potes e os pratos, a mesa se tornara sem mais de um, não havia almoços de domingo...

Mas nas semanas anteriores, num antes inimaginável, talvez antes de cair a neve e escurecer as 4 da tarde, existiu aquele dia, banal e corriqueiro, em que me preparei e fui para um restaurante que estava curiosa em conhecer. Era mais uma experiência gastronômica vegana a qual eu ia em busca. Uma nova descoberta de sentir um tal gosto pela primeira vez…

Entrei, sentei-me na mesa com vista para a rua, uma janela grande. Ali fiquei, me deixava estar entre pratos, gente que ia e vinha lá fora, gente que entrava… Era um lugar charmoso, viam-se os trilhos do trem e a rua, o sol se pondo sobre as coisas e as pessoas que passavam. Dentro, as mesas, algumas iam se enchendo de vozes, ruídos de pratos, conversas, gargalhadas, comida era assunto. Eu tinha um livro aberto que não lia.

Enquanto esperava pelo pedido feito, sem me mover movia-me entre tudo que estava ao redor, ia com os risos e as expressões, observando alguém dando uma garfada roubada do prato ao lado ou um gole do copo, ouvia fragmentos das impressões sussurradas, divertia-me a criança batendo na mesa, querendo a migalha do chão. 

Então, logo o meu pedido chegou à mesa, o prato era muito colorido e saboroso. A sobremesa de chocolate estava deliciosa e dava vontade de repetir…
Aquela foi uma boa experiência gastronômica. A refeição posta à minha frente era muito agradável. Entretanto, não tinha graça…
Fim da história…

Não.
Mesmo, não...
Talvez aqui esteja o começo de uma história que nos últimos tempos repassa a caneta pelas letras daquele dia, do que ficou como um resto no prato, pedindo atenção, outra vez, sobre a mesa e um lugar na mesa. Sobre o que não tem graça…

Afinal, daquele dia, não foi exatamente a comida que se estatelou na minha memória e agora risca, de pensamento em pensamento, uma intuição sobre… Nossas relações, as relações humanas e o que é dividir um momento, uma estrada, uma experiência, a estada no mundo. E nos últimos tempos, é desse dia que vou portando essa constante insistência que pulula entre os passos e o pensamento. É esse não saber que me faz reinterpretar ou querer reinterpretar, uma vez mais, o ato de comer e o alimento como lastro que vai além de um eu. 

Naquele dia, enquanto esperava o pedido e fingia ler e então me distraía entre quem estava ali… Eu ia sutilmente percebendo que o meu pensamento pensava ou dizia ou me dizia que, talvez… A melhor parte de uma refeição ou da experiência de um lugar não é propriamente a comida ou o lugar, mas com quem você divide a comida ou o lugar, com quem realiza, efetiva uma experiência, com quem partilha aquele instante de vida.

Tão bom quanto sentir o gosto da comida explodindo as papilas é, de repente, ver-se parada com os olhos em quem está do outro lado da mesa, ansiando pela comida e depois a abocanhada apressada demais, a colherada quente demais, a língua mordida, a expressão de prazer e de alegria por aquele momento que existe ali, naquele momento. Entre comida cria-se um vínculo, uma intimidade diversa e de alguma forma se sabe que isso não se efetiva sempre ou com qualquer pessoa ou de qualquer modo. Naquela mesa, enquanto comia em silêncio, fui percebendo o quão precioso é viver momentos com quem ou em quem escolhe - livremente - a liberdade de experimentar da vida. 

Fui lembrando de quantas vezes dividi a mesa e na mesa, entre comida, confiei revelações e também fui confiada… As mais íntimas e pessoais, as tristes e as felizes, aquelas que nos mostram as nossas mazelas e fissuras humanas, aquelas que nos levam às gargalhadas. Lembrei de quão divertido é trocar o prato, combinar o que cada um vai pedir só para depois dividir. E então pegar um bocadinho ou ter ajuda para terminar, pois afinal a barriga já está cheia… Mas depois ainda ter um espacinho pro doce…  

Aquele almoço me pôs a pensar mais do que pensar sobre o que é comer, sobre o que são as relações humanas, nossos vínculos, afetos, nossos sentimentos, sobre cuidar e proteger e querer bem… Acho que a comida é um modo de querer bem.

Então a minha ânsia de desaparecer do mundo de repente me des-in-cobre e me descubro a partir dos outros, das trocas, das partilhas, dos encontros, dos reencontros, dos desencontros. Me descubro em tanta história… 

E embrulho meu tempo como presente e faço doces outra vez…

E é também por isso que, fazendo um esforço incompreensível ainda, resolvi voltar para o Girasole.

Pois è bello entrar e sentar-se num lugar bonito para uma refeição, mas é diferente quando alguém divide a experiência ou quer vivê-la junto. O ato de comer talvez seja um pouco isso, degustar a fração do tempo que só existe como experiência por ser a experiência dividida. A comida é um jeito de estar atento para ou pelo outro. De modo que não se trata de dividir, mas de dividir-se, dar-se, entregar-se…

Por que digo?

Porque mesmo agora, quando deixo de cozinhar, afinal eu não vou cozinhar só para mim e o universo alimentar parece se reduzir a maçã, banana, manteiga de amendoim, pão e pipoca. Ainda assim há quem traz um pedaço de bolo porque lembrou e quis fazer um mimo. Há quem chama para jantar e quem deixa clementinas (ou bergamotas) e traz limão. Tem quem pergunte se fiz a sopa. Tem mãe pedindo receita e dica de preparação para o almoço de aniversário. Tem quem diz que vai cozinhar, chama para dividir… 
Tem alguém que na rua oferece um pêssego e quem me oferece café. Tem quem diz que tem fome. Tem polenta. Amigos que bebem Guinnes para conversar sobre James Joyce. Tem comida que nos leva para casa, acolhe e aceita o outro. Tem a receita que parece que vai dar errada, tem feijão e arroz, maçã, tem mais um pedaço.

E sabe… Comecei o ano ouvindo repetidas vezes “non si mangia solo”, talvez agora eu consiga perceber um pouco melhor… Não se trata de afastar-se, de não gostar da nossa própria companhia. Trata-se talvez de estarmos tão conectados com nós mesmos que isso dê abertura para sermos pelo outro, de estarmos dispostos à relação genuína com o outro. E então fazer um pouquinho mais, sair de nosso centro e fazer algo para além de nós.

Ao longo do tempo, coleciono memórias como um caderno de receitas, vou folheando. Notando que o tempo de preparar algo para alguém é o tempo dado a alguém, a intenção, o querer bem. E diante de um mundo tão líquido e acelerado, quem ainda está disposto? 

(...)

Temos fome, nem sempre é comida que nos falta.

Hoje, na hora do almoço, Tales dividiu a mesa. Eu com o pote quase desfeito - tempo de mais no micro-ondas - ele com o tabuleiro. Aqui na mesa do bar da universidade, entre garfadas dividimos parte da nossa história, os ecos da arte e os olhos marejados. A voz embargada entre garfos batendo. Acabo de ver o Tales subindo as escadas, tem ainda no bolso as flores que dei a ele no final do almoço…

Um dia, quando o dia já estava escurecido e o assunto ainda era comida ou filosofia, timidez ou pintura, desfazendo o ditado “se come para viver, não se vive para comer”, alguém me disse que talvez a gente realmente viva para comer.

É por isso que volto a escrever o Girasole, por intenção ao que - talvez - nos faz tão humanos-não-humanos, algo de tão essencial que está na comida e vai além dela.

Por genuinamente acreditar num mundo de gratuidade, generosidade, afeto, carinho. Por acreditar no ato de amor. Escrevo ou tentarei escrever essas histórias que nascem, supostamente, através da comida, mas que no fundo são mais do que isso. É sobre amar. Respeitar, acreditar, doar o tempo e entregar-se. E também atentar para o que é a comida que falta ou a companhia que falta na hora de comer.

Voltar a escrever aqui é um modo de convidar e dividir a mesa e o que tenho. Chamar para provar, cozinhar, rir porque errei ou esqueci a cafeteira ligada, porque queimei o pano ou a sopa (sim, isso já aconteceu), ou o pão. É um jeito de conversar sobre o papelão que anuncia os ecos da fome. É um modo de aprender a ir junto e ir além. É um jeito de reparar o cotidiano, observar atitudes e nossas faces, nosso agarrado centro e querer romper com ele… É sobre dividir-se, entregar-se. Dou-me através das histórias que a mim são dadas.

Mais do que isso, é por querer tocar nossos lastros pra lá de humanos, para lá da racionalidade. Com as letras erradas vou misturando emoções, tato e gosto que talvez nos toquem e nos compartilhem. Dos pequenos e singelos acontecimentos, entre migalhas, um dia que nasce e o café que está pronto, Girasole volta a girar.

Então, se tiver fome vem, porque lá vem história…



Ao Adriano, obrigada pela inspiração.


06.06.22
22.06.22
23.06.22