Trecho: Tristeza

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(me) acalma.

Escreve (escrevo) como única certeza. Única verdade. Não é a única possibilidade. É a única possibilidade. Porque mesmo que o mundo acabe, mesmo que tudo se desfaça, mesmo que os livros e o dinheiro nunca cheguem. Mesmo se nada, nada, nada, nada nunca acontecer. Mesmo que nada nunca aconteça. Escreve. E a tristeza que está aqui suporta, acolhe, acomoda. E sem pedir nada em troca aceita que pode ser sempre o nada. Pode ser que nada aconteça.

(Tem uma tristeza que mora em mim.) Uma xícara de chá na mesa. Um prato por lavar. Um resto de café. Um rosto adormecido pela manhã. Um estalo no portão… Um outro jeito de viver. Um jeito outro de viver.

(Umas ou) uma verdade que ajeita na cadeira e aquieta a incerteza do espelho preso a parede esquerda. No quarteirão inteiro ninguém sabe o nome que tem registrado nem o idioma das mãos. 

E no domingo de noite cada palavra experimenta uma outra forma de ditar. Em noite certa de domingo as palavras experimentam uma outra delas mesmas. Descobrem. Redescobrem quem são ou a quem se deixam ser. A liberdade de amar sem registro, sem timbro, só amar. A liberdade de desconhecer a profundidade de cada volta de uma letra (re)colocada nas curvas da tristeza necessária. Às vezes soam como extintas, perdidas, raras, vagas… São como são, não cabem nas estruturas pré-fabricadas de quem escolhe o dia que não se escolheu.

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