Até os pássaros parecem comemorar. Um trecho, uma fenda do céu em branco, a ponta da caneta como a ponta do morro vestido de véu. Até os pássaros parecem comemorar. Voando. Saltando de uma árvore a outra, quase em bando. A revoada, o estrondo. Rasante. Camuflada, a vibração comemorada piando, o pio no voo, no bafo de rumos rumores, gritos se misturando, abafando, abafados, chuva refrescando. Entre os gritos, a voz faltando, a rouquidão da garganta seca, um gole gelado da cerveja, um gole de chá, um dia de folga, o xingamento no conselho, a vontade de ganhar na falta. O passe lindo. E o jeito lindo de dizer “que passe lindo”. E as janelas se abrindo e a corneta a qual se conhece o nome no barulho mas não a forma desse bicho esquisito, que entra em cena vibrando quando o atraso da comunicação dos astros anuncia o que já foi anunciado. O lapso do mesmo tempo, no mesmo fato, no asfalto, entre as asas que batem… Numa tarde de poda e galhos puxados, de adubações e água de manga, voos absolvem as sementes que chegaram aos pratos. Naquela tarde de ruas tingidas, pintadas, um cão no vidro da varanda sabe como se faz, é no latido que comemora entre saltos, abraços, olhares brincando e brindados no flerte atravessando a rua nos altos. Olham-se vizinhos que até então não se sabiam. Porque a cidade barulhenta, de repente, por algumas horas, parou seus carros e transportes. E a competição, semblante possível, era um parecer sublinhado. Pois o que existia ali, numa rua de paralelepípedos e árvores não podadas, era um certo encontro desarticulado, ajeitado entre janelas, varandas, bares, ruas de comunicações improvisadas, um grito des-sussurado. Era a corneta sublinhando canetas e a sacada aberta como um lastro, enquanto os telefones sem fios davam a mensagem. O que se contava ali era uma história outra, feita de passos, pernas, uma bola e certas cores que pintavam ruas entre santos e a esperança esperada. Era uma lenda partilhada, uma prece, uma promessa, um cristo de braços abertos. Hiatos, sínteses, uma reza. E quem acabava de chegar, quem passava indiferente e sem se importar, de repente, ansiava junto por um passe melhor, por velocidade e a mudança no resultado. A competição que narrava os tempos acrescidos nos minutos não fazia enredo de ganhar no resultado… Queria-se continuar sentindo um lugar vibrando ao mesmo tempo e, no quase mesmo tempo do relógio, acompanhar a crônica de uma cidade que é a própria crônica se contando, estado constante, narrando trejeitos, auras ritualizadas. A crônica trágica e mágica. E os pássaros se puxando, levantando os olhos para lados outros, morros tantos, montanhas molhadas e o vento batente, empurrando fios coloridos que foram se ajeitando entre a rua e o bar, o bairro. Sol e mata nas ruas e nos corpos repintados em tecidos tingidos e barateados na venda da esquina, no semáforo, na farmácia, na cor das frutas do supermercado. Em vilarejos enredados numa quase grande cidade, uma casa na outra se arruma e se amarra pelas fitas coloridas que balançam telhados. Uma união sem veste, onde o grito esperado nos pulmões sem ares é uma comemoração sem nome, chamada no eco desconhecido, esperança. Um algo sem porquê. Porque é preciso. Porque é preciso esquecer e se esquecer vestindo a aura de irracionalidade e bandeiras, e entre os separados descobrir-se e, desnudando-se, unir-se... Àqueles ou aquilo que passam pela rua e param por um instante de lance, um minuto prorrogado, os saltos do ar. E na briga por um lapso de alegria, a insabida desideia de união nos trópicos, com cadernos e o imaginário, no encontro do mar ou do bar, na crônica de caneta e cigarro, no copo embaçado, na conversa na esquina, na saída do táxi. Na segunda-feira, depois do meio-dia, quando houve a invenção do feriado. Recriar os tempos e refazer a possibilidade da denominação da realidade demonstram-se possíveis. Durará pouco, uma semana, talvez… E agora, como ficam? O dia de folga, as bancas improvisadas, o temporário no semáforo. Acontecimento: Um abraço sem justificativa. A narração dos fatos entre passos e galhos puxados. Os pássaros. E os pássaros passando entre os passes, chutes, correndo. Abrindo as asas e saltando de galho em galho. Os últimos lances, os últimos minutos, os acréscimos da alegria prorrogada. Um jogo, não. Um hiato de folga e alegria. Um sonho qualquer, um motivo, um biscoito, um doce estado transportando uma incompreensível esperança. De vida. Voando… Nas curvas dos bairros e dos estabelecimentos fechados, a competição é um resquício cobrando imposto na televisão, enquanto nas ruas, um lastro de riso e um motivo de assunto, de susto entre os amigos desconhecidos da padaria. Era um dia de descanso, de atraso no banho, de voltar mais cedo pra casa. É um motivo para brincar de alegria, é um indício alimentando uma desconhecida esperança. Que vai passar, mas que até lá ainda é um riso, sorriso fácil, brindando o jogo da vida. E depois disso? As camisetas e bandeiras, continuam… As vezes estão diante da televisão na esquina do bar. Olham atentas um jogo qualquer, continuam saracoteando por aí, mas já não há a mesma energia. D. RJ - 30.06.26
