1/4 de horas em que…

Passando gli anni canta o homem em seu violão de bigodes brancos. No mesmo canto da muralha o mesmo chapéu e o mesmo violão, a mesma música que aqui cantava anos antes, quando de passagem as pernas se descruzavam…

Existe um documento dentro de mim.
Um documento dentro de mim…
Um documento que não foi dado por pedaço de carta nem de plástico, aqueles que seguem guardados e revistos mecanicamente escondidos mil vezes sobre mil.
Existe um documento dentro, sem nome e sem forma, oferecido sem ser solicitado. Um documento que faz rir e que às vezes chora, que mexe em coisas ao seu gosto e acaso. Tem lágrimas nos olhos e andanças, partidas repartidas e partidas. Senza data di scadenza batte il cuore. Um documento que se arrepende pelos cinco minutos em que o voo não se atrasou, perdido no tempo. Um documento que se arrepende de pensar e calcular a lógica e o risco. Mas que quando se esquece, é diferente, flui sem se pesar, è come… ti capisco, ma non lo so spiegarti.   
O documento que me estranha e me guarda, perso da qualche parte, all’improvviso se clama quando sento no chão em flamas de páginas que se regem, falam, não fazem quase caso, no entanto, la passione di essere e questa profonda, profonda emozione. Non so da dove viene…
Si… Uma língua que não sendo mãe reclama, uma mãe que grita de dentro della stanza chiamando, qui è? O eco não responde sono io. E no entanto… la vita ancora, senza spiegarsi, sottile e leggera.
Da linguagem dos primórdios da língua mãe, um remoto tempo inspiegabile que se inflama, declama, pare. Dare la luce, dare alla luce, ritorno, rientro di me a me. Niente parole, niente detto ai documenti e anche così, attraverso quelle parole…

Mi nasce, mi fa rinascere un inizio di pomeriggio, num buraco de livros, comida e arte, dove altri segni non prendono, tranne mille (in)spiegazioni. In un punto perso di una pagina senza numero, mi rincontro.
Niente si spiega e anche così qualcosa del cuore si esprime.
Mil livros abertos e páginas repicadas lidas por acaso. Um documento desvalido e válido da mãe na língua que escuta as voltas do remoto primeiro choro renascido diante da luz. Dare la luce.

Un filo di riso
A conversa dos objetos
Os objetos no que lembram
No que ainda será escrito dos ensinamentos dados por eles…

Sbriciolato, abbiamo mangiato come gli uccellini…
Per caso, mentre la città ci riconosceva.
 
Entre versos,
Os títulos dos versos que ainda não saltaram sobre versos
A repetição da ópera do balé da rima  
La mela
La cena 
La risata 
La brontolata 
E te, il nome per un futuro…

As risadas saltam sobre a mesa, as tigelas se alcançam e se atravessam, descem os goles, escorregam guardanapos sobre bocas que, ainda mastigando, seguem o fio da conversa…
Há lugares em que o céu não chega a ser todo de tanto azul. Mas no terceiro andar, na parede dos fundos ou a norte, o azul se derramou e se derrama ainda rosa, adocicadamente rosa em rastros do horizonte da noite onde a luz em fundo azul sorriu. Companhia de um poste de hora marcada, focalizado num lastro de passagem ou de passa tempo. As luzes ainda tímidas tentam se comunicar.
E quando se fala de amor.
E quando…

Ao redor tudo se olha e fecha os olhos. Ao redor olho e o ao redor olha, silenciosamente calmo, escutando ecos do coração das coisas que se batem pulsando, pulsando, pulsando. A percussão da arritmia, a voglia di vivere. La voglia rivista per caso, num documento outro, de palavras que não são mães e que mesmo assim, são.

Quando as imprecisões se alegraram e o pensamento mudou de ideia, os rumos ou os muros desfizeram sua rigidez, a conferência dos papéis foi sendo esquecida. Assim os corpos tomam banho sem pressa e sem pressa alargam a conversa quando os talheres já adormecem ao lado da mão que escreve. E as risadas abafadas no espelho do banheiro. O único, feito de jeito para dividir o rosto lavado, o creme e o cabelo preso. Enquanto isso, uma nuvem branca adormece na porta, espera, seu tempo é este. Esperar não é uma demora…
Quem ri mais alto tem no tempo o pão da torradeira cheirando a tostadura que cutuca a fome antes de queimar a demasia. 

Será através de um janela que se abre ou se fecha para fugir do calor que o verso descerá do outro lado da rua com a poética que se esconde nas dobraduras do pensamento que, despensando, adentra versos correndo caneta entre a mesa de pratos postos sobre a luz do abajur, frágil e brando. Lugares se misturam, tintas que não secam…
As meias de bordas floridas e a cozinha bonita, olhada. Os livros empoeirados e lidos e revisitados. No centro, a beleza em apreço sem preço, o prazer pelo prazer das coisas belas, viventes e documentadas nelas mesmas, a vida.
Atrás da porta entreaberta do banheiro se escondem risadas altas do amanhecer cedo, depois do banho, dos primeiros indícios de despertador e portas, a taça de leite de aveia, biscoitos e uma banana amarela. E na falta da fome um iogurte para acompanhar os comprimidos de um pé ainda dolorido e machucado, que sentado, chama pelo nome o trajeto de trocar de roupa. Chama outra vez esperando para dizer. Chama, na mesa as colheradas de iogurte e sonhos, lembranças e traumas, danças e mudanças, se divide se soma a vida que se conta.
Andança que nasceu com olhos abertos para o belo e que de olhos fechados continua seguindo o mágico. Andanças de vidas fruindo um poema feito de beleza que se pronuncia de amor que se ama sem se dar nome. Um documento sem nome, impronunciado.

25.05.26
27.05.26
(Itália - Lille)