Para Déa e a nossa conversa O fato de pronunciarmos uma palavra ou conhecermos o significado dela não quer dizer a mesma coisa na condição da palavra dita. O significante ou significado quando vem a ser dizente em si mesmo, na força da língua tocada no céu… da boca. O teto mais alto do mundo, um horizonte infinito. Deus existe, ela enxerga de olhos fechados. E assim refaz a frase apagando a construção hipotética… As palavras que até ali são conhecidas, cruzadas pelo acaso com um sorriso de lado, quase sem voz, de repente sentam ao lado, tiram o casaco e se revelam, como se mostrassem a face de tudo que até então era apenas uma fina camada de sentido e interpretação. A palavra na palavra, depois de muitas vezes pronunciada, se pronuncia pela primeira vez. Depois disso, em ouvidos sentindo um gole no último gole do café que se esfria sobre a mesa, o sol aquece e a frase se persegue, acelerando os passos para dar a mão ao que não alcança, acelera o passo, estica-se, tenta mas não entende. Não entende… Reticente, logo se senta ao chão e fica pensando na palavra que seguiu quando ouviu depois de muito ter dela ouvido. Contracena assim a palavra que continua ouvindo, reconhecendo a voz da voz daquela palavra. Nas entrelinhas a pronuncia se inquieta, tropeça, tenta continuar e continua, se distrai e absorve. Refugiado… Na tradução do significado da palavra que significa. Como dizer a palavra enquanto não é ela quem diz? Entre pilhas de letras um punhado de palavras indizentes e indizíveis entre barulhos movediços. Um punhado entre significado e significante… No céu das linhas da boca envelhecendo, os cinco anos em que sobe degraus e se senta desenhando letras em forma de letras desenhadas em outras curvaturas e tempos. Em que outros se inquietam com a representação da posse dos exemplos, as faltas e ajustamentos em palavras tantas de tantos povos tempos. As medidas em que línguas permitem ver contratempos e a destemporalização do tempo. Um anel no dedo, o telefone na mão, uma pasta levada pela alça com ares de negócios. O teto da cabeça sem cabelos e o semblante aparentemente sério. A seriedade adoçada pela caixa de doces que vai passando, é o meio período da aula que já passou. No quadro branco a tinta falha e na sobra de apagar a cor, as palavras ficam na mão. Erram-se os acentos, sobram-se letras, brinca-se de lembrar o que um dia foi a profissão, o que um dia, a mãe, as irmãs na tradução… Até que numa manhã ri e come-se uma fatia de bolo em comemoração ao aniversário. Enquanto comem divide-se um silêncio e vive-se sem palavras. Divide-se sem precisar dar palavras às explicações inexprimíveis. A leitura nos ouvidos, o condicional e o passado, a hipotética frase parafraseada na releitura do desenho da linguagem que ninguém falamos traduzida (traducente). E as balas de goma, os biscoitos de pistache e o riso que insiste. O tempo passa, talvez ele não volte lá, talvez ele ainda esteja lá. Talvez ele tenha viajado de volta através das perguntas repetidas, de onde vinha… a quanto tempo estava… sonhava ele lá voltar, dizia. Naquele dia, com meia dúzia de palavras desconhecidas que conseguiu ajeitar, interrogou conflitos e trilhou um anseio, ensinou uma palavra. Então, ele que talvez nunca tenha partido, partilhava a primeira vez. A primeira vez em que verdadeiramente se conhece uma palavra. 30.04.26 01.05.26
