Ao quebrar as alças…

Para Mari

Notícias sinfônicas foram ocasionadas pela cafeteria fechada num dia improvável, quando o sol entoava ventos desintocados tocados na ponta do nariz vermelho e nos cabelos soltos, que deslizavam a bagunça do quarto das crianças aprendendo a pintura, pintando traços movediços de paredes tão finas. Rasuras do tempo em outros quadros, quartos feitos árvores no espelho e o espelho apoiado no tronco que agora é mole e desmoldado…

Tão pura, a parede no furo da água dura. Um cano passagem, a louça, talheres e pratos, o que foi contado na metamorfose celebrada na mudança do número no ano. Um verso rimado pelas xícaras de um dia de folga, um dia brincando… Quando bateram à porta, ou vieram pra casa embrulhadas em vida nova, na sacola de boas novas, na nota onde foi registrado o recomeço continuado.

Entre os lastros, um laço solto, o cadarço desamarrado e os armários cheios do que foi in-sabidamente acumulado… A separação das coisas que deixaram de servir no corpo enquanto ainda sentia. Então um passo, a vida dança olhando pro lado, um copo, água pra todo lado, um córrego para o pássaro sonhador e o tecido da vida enrolado na xícara das mulheres que fazem tecido aos destinos e lavam. Lavam seus panos, suas alças, as xícaras que aprenderam sobre a quentura que não apaga o céu na boca. 

Os olhos derramam o tempo olhando para o lado. A curvatura do pensamento e o amadeirado gosto delicado correm no gole da lareira de uma palavra perdida do seu significado, a alma espera sentada no banco. O mesmo onde um retalho azul do céu goteja-se sobre as asas de uma borboleta adoçada em preâmbulos, o posfácio enrolado no guardanapo, um pouco do aéreo das asas deixado para depois…

As crianças já dormem nos sonhos. E os braços, em breve, após ouvirem o rumor que lava xícaras e os traços dos dias, abraçarão os travesseiros ainda cheios e macios. Aqueles que também vieram embrulhados de novos sopros. 
Entre os braços e mãos o que escorre e dissolve é um lastro poroso do tempo que deixou de ser tocado na palavra tempo e saiu pra vida, quando as xícaras se soltaram das alças sem lástimas ou peso, apenas uma despedida partida. 

As mãos assim vão se descobrindo concha, guardam o aguar aguardado do sopro, um sorgo, um instante, um gole do infinito.

Ouve então agora, é o crepitar da madeira dando de beber, dando de beber às mãos que atendem e arrefecem o tempo em que se acolhem. A calma de não fazer movimento, de não ser a ação no centro. O líquido vertido, a cerâmica moldada nas mãos das águas, eis o acontecimento. Entregue às mãos poeira que abraçam o gole que passou.

E as alças quebradas, também elas no traço das bordadeiras, estão reinventadas na bengala de um guarda-chuva que, nos céus, voou.


Lille, 22-23.04.26