A mão da moeda

As mãos pintadas de tempo. O tempo que foi passando sobre elas. E sobre elas acumulando pedidos de perdão por moedas que não caíram nem foram suficientes para fazê-las calor corrente que, passando, tenham sido capazes de aquecer a primavera ainda nublada e cinza de um dia celebrado de renascimento. Portas duras e embalagens plásticas aos acúmulos.

A mão descasa do tempo, deita-se como um obstáculo no contexto, a tela e a saída.  As mãos escondem na mesma medida que esbarram e escancaram uma vida total e plena que se deita no degrau mais extenso, o espaço de um isqueiro.

A mão é um corpo, um corte, um silêncio e um respiro, um ímpeto, um espirro, um suspiro, uma voz, um coração desacelerado. A mão são as lágrimas de outro rosto. Talvez um sorriso. Uma criança que foi e continua. Um embrião que nadou no útero nove meses se ajeitando para abrir os braços e que então, ao renascimento acolhe-se, recolhe-se, encolhe-se. E na posição fetal embala o sonho de um país imaginário que celebra dormente. No bolso, identidade impressa e guardada, revisada mil vezes ao dia. A repetição por convencimento ou lembrança de existência... Um pano de fundo, um saco fundo, um furo. Rostos adormecidos, chicletes mascados, olhos húmidos que perguntam olhando no fundo dos olhos de vidro.

…Fotografia nenhuma registrará os efeitos, a performance, um piso leito de uma mão que segurou o tempo e esmurrou o duro puro de um concreto armado cego de um vivente diante de um outro, o mesmo. Ambos os lados, o mesmo lado. E o leite derramado dos excessos que se escasseiam e escasseiam a imensidão da vida que se arranja com as penas nos ossos.
 
Palavra nenhuma segurará entre a caneta e o papel a mão fria que acumula, continua acumulando as dobras do tempo, as dobras do tempo, as obras da desumana humanidade que se habitua. 

Na luz do escuro acende-se uma vela na ponta do isqueiro perdido que segura a mão que, entre os dias, flutua. Que as palavras, naquilo que não alcançam, possam ser um sopro na dobra do tempo embalando o sono cansado.


Lille, 07.04.26