Só provar…

…Tremendo de frio, as rodinhas da mala seguiram em direção ao ponto de ônibus antes do dia amanhecer. Na mesma rua conheceram o posto de gasolina e aprenderam a abastecer um carro emprestado. Meia quadra e o estacionamento, a casa e o tempo de meia temporada. A sensação térmica, as palavras desentendidas, as vitrines e os folhados. O turismo de supermercado, a autorização dos pacotes de biscoito…
A curiosidade diante de… Um bolo, uma bala, um negócio frito, um nome esquisito, o tempero de algum lugar antes ou depois da linha dos trópicos. O pé caminhando torcido e a dedicação de andar pelos corredores. As aulas, os semestres. Os equipamentos e os utensílios. O que se ajeita na mala ao bisbilhotar pelas frestas das cozinhas. E entender as máquinas e as dobras da farinha. Os olhos cravados no pão crescendo, nas fórmulas que tropeçaram erradas, forças que, às vezes, desandam, vão embora. E ainda assim, o fermento alimentado como ente que se cobre e se deixa ao frescor de uma tarde.

Um museu do acaso, um outro carro, os sinais e uma brincadeira a mais. E ao escutar música, percussionar as batidas, sentir a entrada de uma flauta que flutua, um batuque, algo de lá, uma terra de chão batido onde foi visto e vestido de fazer arte.
Entre andanças dançadas, estacas, estradas de terra sem sinal, estão a pintar rostos em buracos, movimentos bruscos, bancos, talhos da madeira onde um pássaro caído bateu para morar na cabeça. E uma fruta amparada no pé, amarela na cor, mistura sabores e formas desconformadas em formar uma forma dada, são santas nuances avistadas, a passar. Farinhas, leites espremidos, águas doces e frescas e as frestas de vidas inteiras.
Provar…
Só provar…

A distância espreita ao contemplar… 
…o gosto de amanhecer no escuro e as maçãs no meio dos caminhos, maçãs e cafés. E cafeterias e cafeteiras e os planos, os panos de prato, os pratos e os sonhos… Uma mordida, os passos de um passeio, a rua atravessando. Trocam-se os lados, continua-se andando...
E os passos e as ruas de silêncios vagos. E os pássaros, os nomes, os aspiradores de pó e a respiração dos poros.
Acordar e fazer café.
Acordar e rir.
Acordar e por a louça do dia antes no lugar. E abrir a janela e olhar o horizonte, um monte lá, ali distante, entre o inventário da previsão da chuva e a expectativa do calor. Abrir a janela e acalmar as imprevisões da vida, as ânsias e as velocidades corriqueiras.  
Dois passos para cá, dois passos para lá, inventa-se manteiga, e a cozinha desvenda e se ajeita como um salão transcendental ao pé da serra onde a dança não se nega. 
Entre vapores de panelas e traduções de farinhas e sementes de uva, misturar misturas… E bagunçar-se na bagunça de cozinhar como se misturando tintas na tela. A abstração da pintura ingênua e pura, tintas feitas do chão em que se voa. Onde se come devagar com pressa, debulhando no céu da boca cometas de passagem doce que não se repetem amanhã ou… Não escrevem jamais a mesma palavra no céu azul de outras bocas…
Provar…
Só provar…

A câmera, um gorro, um livro, dois livros, três livros, uma caixa de lápis, telas em branco, uma camisa de linho, um tênis caminhante sozinho, um caminhão de flores que nunca chega, um desenho riscado com pernas de palito, uma sobremesa sobre a mesa das manhãs. Frutas, sementes, um beijo e até depois. Atrasos e atrasos que nunca chegam.
Uma cerveja, o cigarro enrolado de mato, flores comestíveis, um boteco embaixo da árvore. Uma banca, um portão azul e a risada incontrolada na meditação, a dança dos passos de quem brinca na contramão. Um disco e um pincel para varrer o pó, a água das plantas e as sementes divididas com os pássaros. A câmera sonhada procurada no mapa. Uma palavra feita na palavra sem idioma e com nome próprio…

Assim, simplesmente, sem nem pensar sobre o que, viver. Leve como uma pluma nas barrigas que se acumulam na gula ansiada pela vida em seus gostos.
Janta-se o improviso, faz-se do chão à mesa, faz-se um banco onde não havia. Face à invenção dos sem sentidos ao que assim faz sentido. 
Provar…
Só provar…

Não saber como será e continuar. A tentativa. E ver… sorrir. Só, assim…
A tentativa, entre aqui e lá, mergulhar e navegar molhando a neve e a chuva congelada. E ir se molhando na água, por águas de rios e pelos vasos suculentos de frutas que escorrem pelo rosto, pela boca, pelas mãos, na hidratação das plantas,  pela cachoeira da mangueira aberta na varanda. Não saber e saber e ainda assim… Ainda sim, continuar.
cá e lá
lá e cá
um único aqui sem lugar… 
uma palavra para se inventar.

E ao entrar aqui e lá, antever um lugar sujeito na multiplicação que se esparrama permeada por linguajares não falados na fluência de idiomas. São linguagens que ainda não chegaram. São trejeitos que a delicadeza capta…
E as comunicações entre perto e longe, sobre… Como será, como não ser…
As incertezas que são, clichês, da vida não saber.
Provar,
só provar
e ainda não saber...
só pra provar.

E continua a desconhecer...
 
Na passagem do tempo nos dedos irregistrados entre ovos e bolos esquecidos de perguntar, entre o gosto das linguagens e as aprendizagens, o recorte dos anéis que não são o ouro. São bolos analfabetos que de tão sabidos de manejar nas mãos onde o anel foi colocado, faziam gestos em uníssono. E que agora… Agora fazem da memória do tempo “na casa da vovó clara” um pedaço açucarado de um verso universo a gesticular entre um carinho e um dedo quebrado, com a lucidez plácida, clara, de uma nuvem girando a espátula, o ar, o ar… Suavemente para não perder o ar.

Provar…
Só provar…
Prova!
Só provar um gosto…
Pela vida.


06.03.2026