Aprender amar as coisas quebradas

Minutos antes havia passado seus passos, pernas geladas e luzes fracas, meados do que se chamava inverno. A neve já tinha caído e o cinza parecia morar definitivamente sobre o azul onde os pássaros invisíveis cantavam um verso e depois partiam.

Antes que cruzassem a linha do trem daquela improvável manhã de sábado de sol…

Distraído do carrinho de bebê que o avô empurrava, seguia pelo outro lado, olhava olhando com nuances de tímido, de ainda criança, esperando ser olhado pelo rosto conhecido, reconhecido no outro. Nada dizia ou mencionava ao avô que olhava em frente, calmamente empurrando, empurrando um pequeno que dormia.

Olhava com seus pés distraídos e contava com a sorte sem saber que ela existia, não contava os passos, nem o caminho. Nem imaginou que pudesse haver uma esquina em que ela talvez dobrasse como se dobrasse a dobradura do papel para fazer a asa de um cisne tentando voar… Ou uma carta interposta na caixa da rua, um postal de si mesmo, uma notícia, um envelope ainda lacrado na saliva depois de anos, de anos…

E o avô guiando o guidão, levando um neto, o irmão, um feitio, relatos, futuros indícios, nuances, irmandade, laços, trágicos romances, amizade, um brinquedo impossível.

Olhava para o lado.

E o outro lado era povoado por uma vida de bairro, cruzamentos e estradas de cidades que se colavam umas sobre as outras, dividindo a umidade das calçadas e as escolas, a igreja, mercadinhos, portas e jardins esquecidos no inverno, rostos e vidas passantes que se reconheciam e olhavam para o lado e às vezes falavam, conversavam, trocavam bom dia. Às vezes, era uma mulher saindo de pijama, meias e chinelos de dedo, atravessando a rua em direção - talvez - ao cheiro de pão quente da padaria. Da chuva do dia inteiro que não foi aquele, seguia olhando para o lado, cadarços amarrados antes de sair de casa, no ar a mão desavisada da luva, na lua, acenava como uma bandeira saudando um planeta.

Na chuva do dia anterior, abanando no ar a mão sorria e do outro lado uma garotinha de cabelo amarrado seguia.

E no meio passo entre um planeta e as pêras carregadas na mochila lembrava-se de que, com as mãos dadas, carregava as coisas quebradas que aprendera amar. Feitas em perfeição e desfeitas da preponderante ideia da exatidão. Funcionavam como a vida sem função. Aconteciam. Pela imprevisão de terminar ou continuar, girando na contramão. A vida e a máquina e os dias escreventes como um passo dado e um planeta encontrado. Um tropeço pro lado.

Pois na obsessiva ideia de garantia ou perfeição, riscou-se como um fósforo úmido, demasiadamente guardado, que se acende pálido e se apaga num instante…

Assim, numa manhã sonolenta está a câmera sobre a mesa inventada. A mesma na qual escreveu com travesseiro e acordar cedo, em folhas de um caderno e na última página do livro lido, sobre…

A fotografia que não partiu, que continua lá, a memória e a nova câmera. Perfeita e irônica, que no primeiro estalo, com preguiça de si mesma, rindo da obsessão do acerto, protestou sobre os números e não se arredou de uma letra curva, fazendo curva e nada garantindo...

Amar as coisas quebradas, falhas e imperfeitas. Amar pela falta que dá espaço e com palavras se inventa e se ajeita.

No lastro das coisas que havia abandonado pela incompletude do mecanismo, pela inexatidão do conserto e a improvável ideia preste ao clique, diante da imagem que congelada esperava para se apagar, se apagar, se inventar… Confiar-se a imprecisão de si, na imprevisão das palavras que erradamente conjugadas fazem ação ao verbo infinitivo. Aos poucos exercitava a confiança nas coisas machucadas, nas coisas de si que aconteciam sem abdicar das falhas.

Um clique estala no horizonte.

Atravessando a rua seguia observando, absorvendo, bebendo, rallentando, rallentando, aprendendo e desaprendendo. Errando. Errando, errando. Diante do desconhecido, entre seguir e ficar, deixava pra lá a fuga. O verbo a refugia. Estava seguindo e um rosto de menino sorria. Um pássaro insiste e canta sobre ouvidos carregados de música. O som do vínculo com a vida aguarda e guarda como arquivos, asas e depósitos de fotografias. Rallentare então é um alento diante do improvável, do indizível…

Entre um garoto aprendendo a gostar e um peso levado nas costas com fome, curava-se pela indefinição de existir. E no primeiro dia de sol que surgiu, saiu sem rumo, como uma liturgia. Carregava a câmera quebrada e o menino que para o outro lado da rua sorria e acenava.

…Aprender a amar as coisas quebradas, às vezes reparadas, às vezes sem respostas. As vezes funcionando, às vezes tentando, às vezes arriscando, às vezes prevendo um conserto e um concerto de bilhetes esgotados.

Nas calçadas, do outro lado, com páginas rasgadas, capas amassadas e a câmera com a sua particularidade singular, aprendendo a amar...

Flutua colecionadora de vida na passagem do tempo impreciso ao recontar… Brinca de escuro no escuro, sem gravar em números a passagem de uma luz a outra. A câmera que a fotografava nitidamente borrada, dissolve-a entre a luz e o tempo do disparador.


02.26