Aos poucos…

Pelas ruas onde um jeans novo passava eles começavam à preparar os canteiros onde, talvez, flores fossem replantadas. A cidade e a apresentação da presença de uma frase escrita na palavra , que, um pouco desgastada de seu uso, nega-se e parte… Para as montanhas. Também elas talvez já gastas pelos tubos de ensaio e lentes fotográficas de alta revolução ou pelo discurso repetido à beira da moda do fugir e chegar, do correr para elas e construir a desconstrução do que seria salvar. Anda-se sem pedir licença ou perdão…

As frases e as montanhas mesmo se cansadas, abrem suas portas caminhos sorrindo e dão passagem…

Não sei se as reticências estão gastas. Nem se estaria gasta a concebida totalidade do não sei enquanto frase completa. Na cidade que vai se rabiscando aos poucos, passou por debaixo da porta, atrasada - a porta -, a pergunta em letras erradas: existe uma expressão para aos poucos…

Aos poucos…

Aos poucos…

Aos poucos vai amanhecendo. E aos poucos vai se demorando a levantar e vai restando aos poucos um pouco mais com o rumor da chuva. Até que o sol, depois de seus aos poucos, apareça desaparecido sob um céu nublado. E quando a chuva em rumores não estiver mais lá, em seu lugar entrará em cena o murmúrio das máquinas que contentes espreitam as horas da sexta-feira. Em breve, um amanhã para descansar dos próprios ecos e ruídos.

Aos poucos, a longa troca de mensagens, a desculpa dos livros, a semeadura do interesse e as leituras e as maneiras de ler a vida ou o mundo no meio do expediente. E o rendez-vous acontecendo no centro organizado de uma livraria de obras antigas, acontecimento da passagem pela rua. E um livro na entrada do bar, do mar - Nietzsche e o vidro embaçado - poderia sem um título…

O encontro, às vezes, é aquele, este. Um segundo de alma atenta e distraída, de passagem. Como um acaso que esparramado se esparrama, dialoga, sugere, responde, fala aos passos que aprendem a ouvir enquanto caminham aprendendo um para onde que não é estreito nem definido, são margens e semeaduras... Efeito do feito do aos poucos, continuando, continuando…

Aos poucos… as mesmas ruas vão sendo trocadas, o fim de um pacote na prateleira vai ser substituído por algo que nunca comeu. Aos poucos vai perdendo o tempo do sempre o mesmo, da mesma coisa. E, então, aos poucos, as 18 cores na caixa de lata, ao serem apontadas na ponta fina de um poente poema apontado para o céu, vão estar apontando suas lacunas e faces ao contato do papel… E quando o pingo do chá, distraído e brincalhão, escapar por entre os furos da mão tremida, vai misturar as cores e pintar um despintado borrão e assim as 18 cores se multiplicarão. Como as ruas e as flores plantadas na preparação de um canteiro e a calça que, envelhecendo, vai trocando a cor das calçadas e dos passos. Assim como a chuva que cobre cabeças coloridas que tiram casacos e abraçam e usam coletes e lenços mais coloridos que falam, riem. Misturam-se idiomas com fotografias, misturam-se cores ao preto e branco, tatuam-se lábios e unhas. Não se explica, dançam palavras puxando cadeiras, bebem copos. E ali, aos poucos e sem cessar…

…Aos pés da rua, do canteiro, das flores que ainda não foram plantadas, nas lentes guardadas, da música sem voz, da mão esquerda da escrita, do desenho. Aos poucos…

Aos poucos, distante mas ainda assim ali, no horizonte disposto por uma janela que talvez alguém tenha lembrado de chamar. Através e com ela, a luz da rua, nem amarelada nem branca. A luz da rua ilumina sutilmente a estrada por onde a chuva cai…

Aos poucos…