A janela e a página

E se se inscrever agora o calor que na pele coça e a coceira que não deixa dormir. O resto, um drama arranhado na fissura entre pele e unha chegará na manhã do desenrolar da pele reclamante denunciando alguma coisa qualquer que não sabe dizer durante a noite da primeira noite da casa na cidade de olhos fechados. Com ela, agora, entre distrações e tropeços, conversa… E as paredes mornas em pálida forma, tentando acalmar a pele como quem tenta acalmar quem chora… Um embalo de cada vez.
Ela e eu, embaladas pelas circunstâncias da noite e dos rumos de sonos infinitos, com os risos tímidos de quem não tem nada a dizer ao simples mesmo, simplesmente, desmente e diz, puxando o fio pelo tempo ainda vestido de frio… De repente, quem vê, a noite perdeu o medo de ser, ficou ali com o papo furado até adormecer. 
Da dobra do furo, a réstia do tempo vem se encostando, conheço o som, recombinam-se as saudações, bom dia. Então se apresenta o dia, que lá de longe vem trazendo o eco das cordas dos pássaros pequenos, tão mínimos que animam as almas das almas que não os ouvem nem acordam. A vida baila o baile da dança da própria vida, sem creme e sem remédio, na pele de um ser vivente, vivido e vívido, que recria a cria da cura, crua como céu onde os pássaros comemoram. Recomeça o começo do sempre o primeiro dia, do tempo no tempo chamado de não, mas não.
Acorda, dá a mão ao fio da vida que no frio da fresta aberta acerta os pontos despontados de um relógio desmontado, talvez seja sobre ele que então o baile baila e o pássaro afina sua alma no bico, sonoro… engolido foi o delírio e o sono sonso dos olhos da manhã sobre páginas reticentes na retina. Agora o barulho de uma cidade em movimento faz companhia no café de um xícara bem vestida, passada a filtro. Pois pode ser que em algum lugar já tenha sido escrito, os documentos revisados, a porta revisitada e a sensação de esquecimento guardada no guarda-roupa em meio a roupas não usadas, entre solvidos e solventes o ar suspenso, apenso….
Ao distrair o esquecimento, salta a palpável lembrança de um banco de igreja na reza criada no órgão propagador, ondas, ondas, mais altas, mais altas, o mar acompanha, sopra, sopra. A tarde no meio de uma cidade alterada na rota das rodas, um pneu sem jeito para o branco da entrevista vista dos céus na sola dos sapatos.

O cheiro de chuva toca no vidro da janela, cheiro de chuva é o barulho das gotas vistas na concha das mãos coladas no vidro, do alto, um andar que não soube fazer conta. E lá embaixo, entre poças, a chuva reunindo cheiros de chuvas... Poderiam ser mãos no domingo, poderia ser outra janela, poderia… um toque nos dedos da mensagem de velhas senhoras coladas às janelas em manhãs já tardes. Cães que passeiam ruas em obras, trilhas sonoras de semanas nubladas e sóis que aparecem por acaso, de maneira improvável. E para encolher o papel, poderia ser dito o dia da semana contada nas horas de recolher os cabelos que se acomodaram nos cantos entre o corredor e o quarto, poderia… a re-feitura do chá ou um copo de água avisado que a cafeteira chegou pesada e que as palavras vão se aprendendo a ler nas entrelinha dos ouvidos. E que tem visto… Cartas que entoaram poemas de um silêncio bem dito. Uma janela é um livro. Às vezes cansado, mal lido, às vezes aberto, esquecido… Talvez, por vezes, aprendido à distância, ainda sim… Um livro é uma janela e o avesso…
É sábado, e tão improvável… Sem as máquinas, o sol acorda e começa a falar mais alto.Talvez não possa ver, mas é a combinação entre uma toca e um par de meias rosa o que caminha passante num suposto outro lado, de uma suportada suposta rua que de tão gasta, tão gasta, está sendo remendada com fio e agulha…
O tempo ainda coça, mas olha pro lado, a janela continua a página…


07.02.26