“Por que não é o teu país…” Era a resposta sobre a diferença entre estar sozinha na mescla que separa o aqui de lá… Ela continuou engolindo o resto do biscoito no ácido da mostarda. Depois se levantou, recolheu o prato, lavou e cortou a fruta, mastigou sentada no sofá… “porque este não é o teu país…” E de quem é? E que país é este? E qual país é de quem? Da tentativa de deixar pra lá, na vasculha dos filmes o enredo tropeçava na mastigação sem resposta. Não era uma ofensa nem uma crítica, era um buraco que antes que fosse cavado ou concretado, era um buraco. Um canto do caminho que cantando nada cantava e no entanto era lá, um ponto no ponto do retalho a ser deixado, de lá pra lá e que entre tantos entretanto… A escrita do nome em árabe, o chá georgiano, as páginas ao contrário, a câmera japonesa, conjugações em chinês, um livro lido em francês, um vídeo coreano, uma mensagem respondida em italiano, no bar a música em inglês, o recado do motorista do caminhão em holandês, o guarani no pórtico de entrada da cidade, os herdeiros herdados de línguas mortas na raiz das palavras frutíferas, a pigmentação da língua misturada com ingredientes da terra comida em folha de bananeira e óleo do amarelo queimado, a cor que bem pode ser uma nação, assim como a pena no ar, as réstias de sol, vento gelado, uma gota de chuva escorrendo pelo vidro, o pó sobre o espelho ocioso. Pois as línguas ou linguajares demarcados numa frase fazedora de uma forma para ser país na colagem de papéis recortados e montados eram apenas a superfície do lápis riscado, reduzido aos descolamentos descolados de uma figura descolada e esvoaçante no horizonte, já tão distraída até mesmo da palavra mundo. Pois, ao apagar o risco entrava pelas linguagens desconhecidas do conhecido. E ao lembrar que mastigava, não respondia. Tramada com silêncio e vagar divagar, a linguagem de um país sem país nem meu se estendia com um pano infinito ao vento outra vez. E pulando a pedra do número na amarelinha, um salto além, relembrada esquecida, lembrava outra vez que da linguagem para mundo viramundo um pássaro e outros chegavam e os riscos no céu anunciavam andanças mudas ao mesmo tempo em que brotos anunciaram vozes vindouras. O timbre cantado do tempo vinha entre cantos mais altos e aproximações na janela e riscos de tintas. E no fotômetro, mesmo quebrado, a captura sem captura, a nuance desfocada de um país da vida sem forma. A carta aberta em azul num painel gigante do museu ao centro do mundo. Qual centro? Do mundo dos donos de quem? Qual mundo? O desconhecido abre a porta e não pede documento, lê a face sem pedir comprovações e a passagem dos dias vai dando passagem ao passo da vida que se desfez das línguas estudadas pela gramática do tempo certo a dizer. Sem país e sem linguagem, começara a escrever palavras erradas da métrica e riscar lápis sobre a técnica da proporção… Engoliu o gole e abraçou no riso o resquício do indício do que não era seu. Das casas, tomou as caixas recortadas e empilhadas e as desfez sobre o chão, misturando tudo até que se perdesse o rastreio da procedência, a origem. E no mapa apagou a linha que atravessou sem conseguir tocar a precisão do limite de caixas que a chuva que cai começa a desmanchar. …Talvez como este, aquele que inexiste ainda na rota de quem procura definindo margens para ver... …E os rasgos das folhas nos pratos dos lugares que há tanto haviam deixado as horas durante um jantar sem vinho naquela noite. Mas, de repente, entre o estranho e o espaço de talheres e mastigação, de repente… No estrangeirismo de um lugar registrado em papel e local, que um dia fora talvez expressado como condenação e que agora se torna o lastro para uma palavra que não se diz, não para ser, talvez nem mesmo para estar. Apenas um confuso estranhamento que se escolhe e não encolhe… Não mais por argumentos, por eus ou pertencimento, semelhanças ou confortos, menos ainda por justificativas racionais, argumentos feitos com concreto e rendimentos. Um indizível fluido por apelo de afetos de existências coexistentes, aquelas que se aprendem sem o aprendizado das gramáticas das línguas. Não por chegar a lugar algum, não por ser mais do que nenhum, não por chegar a nada, esperanças ou oportunidades. Apenas… sem expectativa, perspectivas ou promessas. Apenas, porque deixada para lá a gasta casaca que em tantos pilares continua vestida, justa demais, não importa qual seja o canto, o idioma, as listras ou as listas de supermercado, apenas por mais nada. Apenas. E assim ficam deixadas pra lá também as antigas e esgotadas palavras manobradas. E que país é este? E que pergunta é esta? Se tudo ou talvez quase o estudo por aqui ou por lá, é emprestado, dado de coração, a quem chega. E depois parte. As vestes, as fotografias, as páginas - também elas molhadas pela chuva -, as línguas, as linguagens. E olha ali, na tua frente, os pássaros que chegaram em bando e que há tanto aqui estão antes de chegar. Não foi preciso pedir, emprestaram do horizonte o seu lugar. Bebe agora o resto do café enquanto, sobre um banco no jardim, a chuva cai… 27.01.26
