Rosto inchado

Quando foi a última vez que tomou antibiótico?
Vai precisar fazer internação por 48 horas
Vamos entrar com antibiótico na veia.
Vamos fazer exame de sangue e uma tomografia.

As palavras me assustam.

Enquanto o Uber atravessa a cidade do Rio de Janeiro e talvez essa seja a primeira vez em que olhe para bairros outros da cidade à noite, fico percorrendo uma flechinha que desliza um risco de direção, olho para as horas marcadas e para o número de minutos até chegar ao hospital, cinco e 11 segundos.

Meu rosto está inchado. Duas ou três pomadas foram usadas nos últimos dias e o que parecia ser só uma espinha inflamada, apertada no espelho do elevador na volta da feira do sábado, de repente se torna a emergência numa noite de quinta-feira. Minha primeira noitada carioca.

No carro Moa conta histórias sobre como adorava as lanchonetes dos hospitais, só está pelo lanche que quer encontrar no hospital, segura a minha mão sorrindo. Lá, já com etiqueta de acompanhante, bebe cafés ruins e faz graça com um suposto remédio para me fazer dormir, garantindo assim a consumação de uma coxinha.

Vivo um riso intercalado aos tremores nervosos. Tremo como uma vara verde, lembrando a expressão do interior. Ou como uma floresta de bambu, sonora.
A senhora que vem coletar o sangue é delicada, de rosto amável e parece que se sente feliz quando lhe digo, assim é fácil tirar sangue.

Entre perguntas e formulários, triagem e receio de quanto uma internação ali custará, a saga tragicômica começa na sala de tomografia. Volto pra trás, tenho que tirar os brincos, mas o piercing não sai de jeito nenhum. Tento no banheiro e nada, volto para o ambulatório. A primeira enfermeira tenta, depois o Moa, a segunda enfermeira, a secretária tenta não sei quantas vezes, a médica que está fazendo o meu atendimento se aproxima, olha mas não põe a mão, nisso Moa já quer encontrar um alicate para arrancar o piercing. Ele tenta novamente, entendeu o mecanismo. Foi, consegui.

Volto para sala pedindo desculpas ao senhor que me acompanha, mas ele não para de me mostrar os dentes. É bonito mas não coloca mais não.

Deito na cama, ele ajeita minha cabeça e eu não paro de tremer, ficamos um tempo ali, sobre contraste ou não. Vamos tentar sem, se for necessário repetimos o exame.

Ele sai, fecha a porta, a cama onde estou deitada começa a se mover. Meu coração aos pulos, mas meu corpo tremedeira de repente se afirma. Estou olhando alguma coisa barulhenta que gira velozmente quando subitamente o que sinto… O que sinto é que estou ali. Estou ali e que estou bem, a calmaria quem me dá é o estado de eu comigo. Respire normalmente, diz a máquina. Quase me aconchego, querendo abraçar um aparelho plástico ao qual agradeço.

Depois de alguns minutos a cama volta para o lugar de origem, o homem abre a porta e me conduz dizendo que terminou, nada comenta sobre o contraste. Me levando de volta, peço desculpas pela minha falta de habilidade com o ambiente, ele gentil tenta um sorriso, afinal, quem gosta de hospital.

Volto para o ambulatório, sinto calor, tiro o moletom. Talvez ainda não seja meia-noite, mas falta pouco, olho para o relógio e volto a pensar no que pensava no carro. Aquele pensamento que me passou pela cabeça sentada no último assento durante alguma palestra acompanhei durante a semana. Se nada disso leva a um lugar, se nada disso serve, se o final já foi dado, se e se e se depois é, se… então porque não terminar agora? Porque não acelerar, usar a mesma ansiedade do cotidiano para ultrapassar alguma coisa para o fim último?

E ali, pensando em pensares… Lembrei do que, de memória, havia lembrado durante a semana, do que me pensava quando criança… Morrer antes da mãe. Acho que sempre pensei um tanto sobre a morte. Ela por ela mesma não me incomoda.

Isso tudo já parece um drama. Volto a tremer em contínuo - uma floresta de bambu ao vento -, mesmo depois da médica abrir a porta dizendo, boas notícias.

Comecei a ser medicada ali mesmo, na veia, o tratamento segue em casa, com retorno em dois dias. Pagamos a conta e pegamos o receituário. Lá fora as enfermeiras estão comendo pipoca, é quase uma da madrugada. Aproveito o carro deslizando os semáforos fechados e o asfalto de barulho escasso, as árvores e uma cidade outra, de alguns mercados e farmácias 24 horas e daqueles que já fecharam, onde, de passagem, encontro alguém ainda lá dentro com as luzes amarelas. Chego em casa, tomo banho, escolho dormir no sofá, acordo de madrugada com tremores nervosos mas volto a adormecer.

Aninha no telefone me diz, somos muito frágeis mas ao mesmo tempo muito fortes… 

Hoje meu rosto continua inchado, do nome que deram para o que tenho ainda vou ficar com a referência dos furinhos na bunda, quando isso passar talvez eu pesquise melhor. Durante o dia ainda volto a tremer. Moa tem razão ao dizer que preciso ter mais desenvoltura para lidar com essas coisas. Ainda fico pensando na vida - a chance, os clichês, sobre viver também os percalços ou essas coisas estranhas que estando na vida simplesmente acontecem, acho que é bom quando elas acontecem e assim eu possa confundir o pensar e o pensado entre a morte e viver. Pois não se trata de sintetizar ou minimizar, não se trata de servir alguma coisa ou alcançar uma finalidade ou de chegar em algum lugar, não pra mim - embora... Mas de acolher e escolher enquanto há essa possibilidade, criando amizade com uma máquina que te conversa o pensar. As coisas acontecem e seguem adiante. 

Indo para o hospital, eu pensava sobre meus dias e a vida que vai me escolhendo enquanto eu vou colhendo da vida quando não pretendo chegar a lugar nenhum, sei que posso melhorar diante da beleza e dos encantos dos dias, porque assim fica mais fácil escapar do medo de que a vida pode deslisar de repente. Mas às vezes, talvez no meu caso, seja preciso uma espinha me levando para a sala de tomografia e um rosto desfigurado para me acordar de que tenho vivido, de que não me serve ter medo de ser gente. É curioso, embora não consiga expressar, mas o que percebo a partir de um incidente - simples - é a trama de pensamentos que tenho tido. Pensar a vida, seus escapes e planos, as legítimas e as infundadas preocupações, as necessidades e as existências, a crueldade do dinheiro e a necessidade dele para gerar tranquilidade de poder correr para um bom hospital, o receio daquilo que supostamente te dá segurança. Entre quase lágrimas no fim do filme, me levanto do sofá e vou para a cozinha pronunciando frases desconexas, perdidas no ar, sobre… um trabalho não que sustente o peso insustentável da vida, mas uma fonte que estreita os lastro de uma vida em existência, essa que faço agora, não escrevendo aquilo que vivo, mas vivendo aquilo que me escreve… 

Nada de yoga ou exercícios nas próximas semanas. Antibiótico por 10 dias. De resto, para Moa tenho um novo apelido, Jack Sparrow. Embora esteja parecendo mais um coala ou um lêmur de rosto inchado.

RJ - 29.08.25